Sempre fui a pessoa que pede para abaixarem o volume da televisão ou da voz, que não suporta barulhos repetitivos e sons altos demais. Me sinto chata por isso, mas eu não consigo relaxar com certos barulhos, mesmo os que parecem não afetar mais ninguém, como o relógio da minha sala que aparentemente só eu ouço, mas que me desconcentra quando eu quero assistir um filme. Além disso, alguns barulhos até me causam dor.
Pouco tempo atrás, decidi investigar essa sensibilidade, que me limita no dia a dia a ponto de eu me isolar, e que incomoda a mim e quem convive comigo. Então, cheguei ao termo “hiperacusia”, que é definido assim:
“Transtorno de percepções auditivas anormais. Aumento anormalmente desproporcional na sensação de intensidade do som em resposta a estímulos auditivos de volume normal”.
Marquei uma consulta com uma otorrino, que primeiro fez testes que mostraram que minha audição não poderia ser melhor, nota máxima! Depois vieram os testes de tolerância a barulhos, ou seja, ouvir diversos sons cada vez mais altos até eu não aguentar mais. Foi super desconfortável e me causou muita ansiedade, confirmando que minha sensibilidade é real: minha tolerância a barulhos e certas frequências é muito mais baixa do que para a maioria das pessoas.
O meu diagnóstico me ajudou a me entender melhor e foi um alívio para mim, porque me mostrou que eu não sou implicante: meu cérebro realmente processa os sons de uma forma diferente. Minhas filhas também acharam interessante saber disso, já que entenderam melhor por que eu fico irritada tão rapidamente quando elas fazem barulho – e o ponto mais importante para o nosso relacionamento: não é culpa delas!
Existem tratamentos para isso, como terapia sonora, técnicas de mindfulness e psicoterapia. Também aprendi que eu devo reduzir o uso de tampões de ouvidos, que até então sempre foram meus aliados (mesmo no silêncio alemão), já que eles só pioram as coisas por aumentar a sensibilidade. Ao invés de tampões, tenho escutado ruído branco ou rosa à noite, e espero que isso possa me ajudar.
Conclusão: não sou chata. Mas também não é culpa do mundo ser barulhento. Cabe a mim trabalhar minha irritação e aumentar minha tolerância, já que agora sei que a hiperacusia exige mais de mim para lidar com algumas situações do dia a dia. Não acho que vou deixar de amar o silêncio, que é meu lugar de segurança, mas acredito que esse esforço pode diminuir o isolamento que muitas vezes o barulho me faz buscar.