Livro: Por que ter filhos?

“Simplesmente não acho que aplicar toda a energia que tenho na criação dos filhos — à custa de minha carreira, meu casamento e minha vida social — será a diferença entre [minha filha] se tornar sem-teto ou presidente.”
➡️ Livro “Por que ter filhos?”, de Jessica Valenti

Este livro não responde diretamente à pergunta do título, e acho que isso faz parte da provocação. A questão real não é só por que ter filhos, mas por que estamos esperando que mulheres passem por essa experiência sob tanta pressão, julgamento e culpa.

Um dos pontos mais fortes do livro, pra mim, é como ela mostra que a maternidade virou uma espécie de competição entre as próprias mulheres. É como se houvesse um manual invisível da mãe perfeita, que ninguém escreveu, mas todo mundo se sente obrigada a seguir. E quem foge um pouco do script vira alvo. Não amamentou? Está errada. Voltou a trabalhar cedo? Errou de novo. Não fez papinha orgânica? Mais um ponto negativo. É uma cobrança infinita, como se tudo o que a mãe faz ou deixa de fazer fosse definidor da criança e do valor da mulher.

Claro que acho que devemos nos dedicar aos nossos filhos e fazer o melhor que pudermos. Mas o problema é que essa competição cria um cenário em que ninguém se sente suficiente, já que é humanamente impossível dar conta de tudo que está nesse check-list invisível. E aí, em vez de confiança, sentimos insegurança e cansaço.

A autora também fala sobre o mercado que se constrói em cima disso. Existe uma indústria que vive da insegurança das mães. Produtos, serviços, cursos e livros prometendo facilitar a vida, mas reforçando a ideia de que você está sempre falhando em algo e precisa de ajuda externa para melhorar. Vendem a solução para uma culpa que nem deveria existir.

Ela também reforça que não querer ter filhos é uma escolha legítima — e que a maternidade não deveria ser vista como única forma de realização feminina. Em vez de colocar mulheres com filhos contra as que não têm, o livro questiona a idealização da maternidade, essa ideia de que ser mãe é naturalmente recompensador e que, se você não está feliz, o problema é seu.

No fundo, o livro mostra como a maternidade ainda é usada como uma forma de controle sobre as mulheres. Criam uma expectativa desumana de que elas se sacrifiquem completamente pelos filhos, sejam felizes o tempo todo e ainda se realizem nesse papel.

Não é um livro sobre respostas fáceis, mas levanta perguntas importantes que mostram que estamos esperando demais das mulheres.